19 abril 2010

Solomon...


Quando se acenderam as luzes o genérico ainda não tinha acabado e ficou sentada, como quase toda a gente que estava na sala. Enquanto os nomes subiam pelo ecrã, ouvia-se uma canção do último disco de Leonard Cohen, que já conhecia porque um amigo lho tinha oferecido pirateado.
A canção falava de cartas enviadas e lidas muito tempo depois e fê-la pensar no tsunami que levara Mark da sua vida.
No cinema sentava-se sempre muito à frente e não sabia se havia muita ou pouca gente na sala. À frente dela só estavam três pessoas, que também não se levantavam, entretidas a conversar.
Vestiu o casaco e, quando se levantou, viu-o. Estava ali, no meio da sala, sozinho. Sita nao pôde evitar ir ter com ele.

- Olá doutora! - disse Solomon, ainda sentado, com o seu sotaque cubano.
- Olá! Então como está o Biruk?
- Bastante bem... Já vai à escola, mas não gosta nada. Passa o dia inteiro calado, só escuta... Fora da escola já é muito aberto, mas nas aulas fica mudo...
- Isso passa-lhe... Comigo aconteceu a mesma coisa quando cheguei aqui com essa idade...
- Quando chegou de onde?

Saíram juntos do cinema contando quem eram e o que faziam e sem que nem um nem outro entendessem bem como acabaram sentados cara a cara numa mesa do Salambó, um dos poucos sítios onde Sita se sentia à vontade e onde gostava de ir, sobretudo quando saía do Verdi.
Ali, sempre podia comer qualquer coisa, a música era discreta e o ambiente criado pelos enormes candeeiros de papel cilíndricos que desciam do tecto era muito agradável.
As mesas que os rodeavam, todas alinhadas junto da parede, foram-se ocupando e desocupando enquanto os dois continuavam a falar.

- Se à tua história e à minha lhes adicionarmos a história da minha irmã dá para fazer um filme!
- Infelizmente, há demasiadas histórias como as nossas no mundo... E daqui parece impossível que possam existir!
A empregada apareceu com dois bules individuais transparentes. As folhas de chá ainda estavam a tingir de castanho a água a ferver. Solomon não sabia como funcionava aquele bule tão morno e Sita ocupou-se a servir o chá aos dois.
- É curioso pensar quantas coisas têm de acontecer para que duas pessoas se encontrem - disse Sita.

Solomon pegava na chávena de chá com as duas mãos e com os cotovelos em cima da mesa. Ao ver a expressão na cara de Solomon, Sita teve uma vontade irreprimível de rir.
Solomon também se riu. Há muito tempo que não se ria, e o riso, quando não se pratica, torna-se estranho.
- Mas, sentes-te bem aqui, não sentes? - perguntou Sita de repente, parando de rir e sem poder evitar olhar para ele fixamente.
- Em Barcelona vive-se bem, mas é tudo tão diferente da minha cidade... No trabalho há arquitectos vindos de todos os cantos do mundo e o projecto é interessante, mas não acredito que me adapte e já estou desejoso que os meses passem depressa... Teria de encontrar um motivo bastante forte para mudar de ideias e não voltar para Adis Abeba antes de acabar o ano.

Sita escutava-o atentamente. E observava-o. Os gestos elegantes, o olhar tímido, a cor tão especial da sua pele, a sua beleza tão diferente da de todos os homens que conhecera até então.
- Se me perguntasses quais são os meus motivos para continuar a viver em Barcelona, e não noutro sítio, acho que não saberia como responder. Foi aqui que me eduquei, aqui tenho as minhas raízes e daqui é a minha cultura. Mas...
- Não sei se vou conseguir habituar-me a tudo isto, não é fácil compreender tudo o que vejo - disse Solomon num arrebatamento antes de Sita ter acabado de falar. Disse aquilo agarrando-se à chávena de chá como se fosse uma bóia no meio de um mar de sensações desconhecidas.
- A que te referes?
- A tudo. À vossa maneira de viver, às comodidades, aos preços! O cinema, por exemplo! Dou sempre comigo a traduzir para birrs os euros que pago pelo bilhete. E são tantos birrs que mais de uma vez estive tentado a não comprar o bilhete! E isto só para dar um exemplo!
- Imagino que o melhor é não pensar muito nisso. Este mundo é tão estranho e está tão desequilibrado que por vezes é melhor não dar muitas voltas às coisas... Existe cinema etíope?
Sita optou por mudar de tema.
- Cada vez mais. Mas é quase tudo produzido fora da Etiópia. Poderia dizer-se que o cinema etíope é feito pelos etíopes que vivem nos Estados Unidos! Journey to Lasta, Thirteen months of sunshine... Imagino que nunca tenhas ouvido falar destes títulos.
- A verdade é que não.
- A verdade também é que eu até agora nunca me tinha interessado muito pelo cinema e em Adis Abeba ia pouco, geralmente só para ver as estreias dos filmes de que toda a gente falava. Mas aqui encontrei uma boa maneira de passar uns momentos agradáveis sozinho. E vejo filmes muito diferentes. Como o que acabámos de ver, por exemplo!

Solomon era o viúvo mais jovem que Sita alguma vez conhecera. Um viúvo da sua idade e tão atraente era uma combinação demasiado curiosa para despertar pensamentos inofensivos.
Tinha pregado o pedaço de papel com o número de telefone de Solomon e o seu nome escrito em amárico na placa de cortiça que tinha ao lado do telefone da parede da cozinha. Cada vez que passava por lá sentia a tentação de lhe ligar, mas não o fazia.
Nenhum dos dois parecia ter o coração bem preparado ou motivado para novas emoções.
Solomon contara-lhe que em Adis Abeba as pessoas não telefonavam umas às outras para combinarem encontrar-se. Encontravam-se simplesmente, passavam umas pelas outras na rua e decidiam almoçar ou jantar com um amigo ou com toda a família dos seus vizinhos. Ou iam sem avisar a casa dos seus amigos e familiares, porque as pessoas eram sempre bem-vindas.

O único lugar onde imaginava que o pudesse encontrar era no cinema Verdi. Dissera-lhe que vivia perto e que ia com muita frequência, pelo menos duas vezes por semana.
Demorou quase um mês a cruzar-se com ele nas escadas do cinema.
Ele saía de uma das salas do andar de cima e ela subia para entrar na sessão seguinte.
- Olá! Pensava que me ias ligar!
- E eu! - riu-se Sita uns degraus abaixo dele, no meio das escadas, paralisada. Solomon pareceu-lhe ainda mais atraente do que o que ela se lembrava.
- O que vais ver?
- Acho que nada. Queres que te diga a verdade? Vim só para ver se te via...


in Rastos de Sândalo

13 abril 2010

Sonhos locais...


Como uma leve brisa...
Apenas imperceptíveis olhares, em fugazes momentos de segundos inexistentes...
Aquele deslizar suave no ébano... um passeio intocável no negrume profundo...
E uma circular pérola negra na neve madura e inocente...
Uma sinceridade no olhar e doçura num sorriso contido...

E tudo deslizou... até lá acima...
Tudo se transformou de repente... tudo era envolto numa névoa esponjosa que levitava onde quiséssemos...
Tudo pairava como se não houvesse nada à volta.
E não havia.
Era só aquilo e nada mais. Mas era tudo. Num só.

E foi-se num respirar... que se foi...
Como uma brisa de ar fresco num deserto escaldante sob o calor sufocante do sol...

E foi-se num sopro... esvaiu-se no ar anónimo...

Foi como uma brisa que já não volta mais...